Aniversário na China

O aniversário já passou, mas a festinha vai ser hoje. Se alguém tiver em Beijing, pode ficar à vontade para dar uma passadinha!

A foto foi tirada pelo Cristovam Buarque <3 , mas eu que fiz a arte



Escrito por Lúcia Anderson às 00h59
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Na China tem liberdade?

Bom, ninguém quer comentar, então vou continuar meu monólogo... Fiquem à vontade quando quiserem falar alguma coisa, tá? O blog fica bem mais legal com a participação dos leitores. 

Hoje um amigo que está no Brasil me perguntou:


- Lulu, na China tem liberdade?


Olha... depende o que você chama de liberdade. Você não pode falar absolutamente tudo que quiser do PCC (Partido Comunista da China), dos governantes e das decisões que são tomadas. Tem que tomar um pouquinho de cuidado ao falar sobre temas polêmicos, como Taiwan, Hong Kong, Tibete... Sim, mesmo em rodas de amigos as pessoas são precavidas. Lembro de um jantar que participei com amigos e professores chineses. Eu era a única estrangeira e estava mais interessada em escutar do que falar. Uma jovem professora de chinês perguntou: "O que eu falo quando meus alunos perguntarem se Taiwan faz ou não parte da China?". A professora mais experiente orientou: "Olha, você pode falar que durante xx (não lembro quantos séculos) Taiwan sempre foi parte da China. Se há algum conflito há 60-70 anos isso não representa nada ao longo da história". Nisso, uma moça chinesa (que eu não conhecia) falou baixinho apontando para mim: "Ei, vocês esqueceram que tem uma estrangeira aqui?" A professora mais velha finalizou: "Isso não é problema. Só estamos falando a verdade". 

Voltando... liberdade para protestar, falar tudo que quiser para quem quiser... não tem. Facebook, google e youtube são bloqueados aqui na China. Não abrem. Eu preciso usar um VPN, um software que muda o IP do meu computador para outro país para conseguir entrar nesses sites. 

Agora, liberdade de ir e vir, andar à noite sozinha onde eu bem entender. Sim, toda liberdade do mundo. A China é muito mais segura do que países da Europa e Estados Unidos. Posso andar sozinha, à noite (meia-noite, uma, duas da manhã) sem medo NENHUM. Não é que eu ACHO que nada vai acontecer. Eu SEI que ninguém vai me matar, roubar, machucar, estuprar, fazer absolutamente nada comigo. Olha, se tem uma coisa que eu recomendo é andar de bicicleta de madrugada. As largas avenidas de Beijing vazias... o vento no rosto. Ah, isso vale tudo. 



Escrito por Lúcia Anderson às 12h21
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E os meus comentários?

Tem gente entrando aqui que eu sei! Entre 80-100 pessoas por dia (sim, tô de olho!). Ainda é pouco se compararmos com os tempos de glória do blog, quando mais de 500 pessoas entravam todos os dias (já chegou a 3000 visitas em um dia!). Mas logo chego lá! Não se preocupem que não dá para ver de onde vocês entram. Mas queria saber... quem são essas quase 100 pessoas que ainda visitam a página...? Deixe uma mensagem contando um pouquinho sobre você. E fique à vontade para dar sugestão de assunto.

O que vocês querem saber deste lado do mundo?

Beijings!



Escrito por Lúcia Anderson às 07h58
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Aula na China x Aula no Brasil

A maior diferença entre as aulas na China e no Brasil são os alunos. Na China, ninguém conversa nem participa da aula, raras vezes vi pessoas chegando atrasadas ou saindo para ir ao banheiro. Os professores até se esforçam: fazem perguntas, mas os alunos são tímidos e nunca falam. Eu, desinibida, falo e dou opinião até quando não pedem. Outra diferença grande é o tamanho das salas. Faço uma matéria que tem mais de 200 alunos (só eu de estrangeira!). As outras disciplinas têm entre 40-60 alunos. Só a "orientação de tese", com os orientandos do meu professor, que tem 12 ou 13 alunos. Mas, em geral, as turmas são bem grandes. Outra coisa interessante é que os alunos batem palma depois que a aula acaba (alguém faz isso no Brasil?).

Este semestre não tenho matérias obrigatórias, mas estou fazendo quatro como ouvinte:

* Introdução à Sociologia Chinesa - matéria muito legal com um professor incrível. Essa é a que tem mais de 200 alunos. A aula é descontraída e o professor coloca algumas palavras em inglês no powerpoint, o que me ajuda demais (se não, passo quase a aula inteira procurando palavras no dicionário)

* Sociologia das Organizações - matéria do meu orientador. Muito, muito difícil. Entendo pouco. Ele não usa powerpoint, escreve com caractere cursivo na lousa (sim, um dia eu explico) e a linguagem é bem técnica. Vou só porque sou persistente e teimosa, mas é muito difícil. Depois de 2h de aula fico acabada, exausta. 

* Relações China-América Latina - matéria de uma professora muito especial que conheci o ano passado no Brasil. Ela é demais! Só vou quando dá tempo... Uma ou duas vezes por mês. Ela fala bastante sobre a relação entre Brasil e China com relação a economia, diplomacia etc.

* Orientação de tese - matéria dos alunos do meu orientador. Cada um fala sobre sua dissertação ou tese e todos discutem. O nível dos alunos é alto e também acho muito difícil. 


É claro que a língua deixa tudo mais complicado, mas mesmo se essas matérias fossem em português eu teria dificuldade. Por ser da área de Letras, quase tudo que envolve sociologia é novidade para mim. Ah! Outro dia tive uma aula de sociologia da linguagem... que sonho! Muito interessante analisar a língua levando em consideração os falantes daquele idioma e a comunidade em que vivem. Se eu pudesse escolher o que fazer em meu tempo livre não teria dúvidas: aprender mais sobre sociologia da linguagem. 



Escrito por Lúcia Anderson às 09h32
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As mentiras que os estrangeiros contam

Caso 1

- Eu estudei menos de um ano

- Uau! Você fala e escreve bem assim tendo estudado menos de um ano?

- É! :)


Caso 2

- Estudei só uns meses, mas ia pouco à aula

- Nossa! E como é que você aprendeu a falar tão bem chinês?

- Ah... escutei na rua, por aí


Caso 3

- Estudar, estudar assim... eu nunca estudei. Só fiz 2 ou 3 aulas para aprender os tons

- Você fala e escreve mandarim sem nunca ter estudado?

- É!


Gente... não. Parem de mentir. Vamos abrir o jogo, vai... Não tem como aprender mandarim sem NUNCA ter estudado ou ter estudado pouco. Já conheci pessoas muito, muito inteligentes, brilhantes, mas que (como todos os mortais) tiveram que dedicar bastante tempo e esforço para aprender essa língua. Você pode até não ter ido a muitas aulas, mas... tinha uma namorada chinesa. Um dicionário ambulante que te explicava todos os caracteres que quisesse. Que, com muito amor, iria ensinar você a escrever. Aí sim, acredito. Você pode não ter ido a muitas aulas, mas morava com uma família chinesa. Sim, possível. Mas vamos parar de mentir dizendo que aprendemos a língua "de ouvido", "ao conversar com as pessoas na rua". Alguma língua latina, até vai. Mandarim não. 



Escrito por Lúcia Anderson às 15h38
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Roupinhas para o frio (ou: como eu tenho que me encapotar de coisa para conseguir sair de casa)

Com a chegada do frio tenho gastado muito tempo para me vestir. É preciso colocar camada em cima de camada. Adoro listas e estava pensando em tudo que tenho que vestir antes de sair de casa. 

Começando por baixo:


* bota até o joelho

* meia-calça térmica high-tech (que, teoricamente, protege do frio)

* 2 ou 3 meias (dependendo do frio e se cabe na bota)

* calça forrada com pelinho que esquenta

* camisetinha por baixo de tudo

* malha de manga longa

* casaco high-tech justo (que, teoricamente, protege do frio)

* casaco até o joelho com capuz (enorme, fico uma bola)

* luvas forradas

* cachecol


no dias mais gelados, acrescento:

* gorro de lá

* protetor de orelha (enorme também, mas necessário)

* + 1 cachecol

* + 1 luva (não dá para mexer a mão com duas luvas, mas fazer o quê...)

* máscara para proteger o rosto (uma ou duas, dependendo do frio)


Ufa! Uns 30 minutos depois eu estou pronta para sair de casa!



Escrito por Lúcia Anderson às 10h50
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Primeira neve do inverno!

Em frente ao prédio que eu moro


Tomara que o dono do carro não fique bravo...


Coisa linda!

 

Ventando bastante na minha uni



Amanhã: máxima de 1 grau negativo. Inverno está chegando




Escrito por Lúcia Anderson às 10h40
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eeeee... está nevando!

Vou lá fora brincar!

Tem gente que fica feliz com pouco. Que bom! 



Escrito por Lúcia Anderson às 23h10
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"Me dá um beijinho aqui?" - chineses safadíneos

É domingo e estou um pouco gripada. Está chovendo e fazendo 3 graus lá fora. Tinha previão de neve, mas só chuva por enquanto. Tenho um monte de coisa para ler. É o dia perfeito para ficar no quarto. Pedi comida japonesa pelo "Dianping", um aplicativo muito eficiente, em que há centenas de "catálogos" de restaurantes. Basta escolher, pagar e, em menos de 30 minutos, um motoqueiro traz o pedido na sua porta. Dá até para acompanhar o caminho que está sendo feito e saber se a comida está chegando. Tudo em chinês, mas bem fácil de usar. Não sei como eles conseguem fazer tão rápido. Enfim, acabei de receber a ligação do motoqueiro:

- oi, estou no elevador com seu pedido

- oi, tá bom, já estou aqui na porta

nos encontramos:

- foi você que pediu comida? Vejo a cara de espanto dele

- foi, ué. Estrangeiro não come não?

- é a primeira vez que eu entrego comida a um estrangeiro. Posso tirar uma foto com você?

- pode, vem cá

a primeira foto tiramos os dois sérios e na segunda passo o braço por cima dos ombros dele fazendo uma graça. Ele nem hesita e coloca a mão na bochecha:

- me dá um beijinho aqui?

dou uma gargalhada e atendo o pedido. Ela sai feliz com as três fotos.


Os chineses, publicamente, não são muito adeptos a contato físico. Aqui as pessoas não se cumprimentam nem com aperto de mão. Amigas próximas só dão "oi" com um sonoro "nihao". Nada de beijinho ou abraços. Mas, na intimidade... ou quando ninguém está vendo... é outra coisa. Chineses safadíneos! 



Escrito por Lúcia Anderson às 04h06
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Estudante é tudo igual: no Brasil ou na China

Todos os sábados pela manhã faço uma matéria que seria o equivalente a "orientação de tese" no Brasil: todos os alunos de mestrado e doutorado do meu orientador chinês se reúnem para discutir suas pesquisas e apresentar trabalhos sobre os livros que estão lendo. São uns 12 ou 13 alunos. O orientador, claro, orienta e todos discutem o que foi apresentado. Eu achei que seria somente ouvinte, mas umas duas semanas atrás tive que apresentar um trabalho sobre o FHC... em chinês. Não ficou brilhante, mas consegui. 

Bom, na aula de hoje um colega estava apresentando um trabalho sobre o último livro que leu, quando... o orientador sai da sala por alguns minutos. Uns olham para os outros e o aluno que estava apresentando desabafa: 

"Nossa, que pressão! Vocês não imaginam como eu estou nervoso. Ufa! Ainda bem que o professor saiu um pouco". Todos riem e se entendem. Aluno é tudo igual. 



Escrito por Lúcia Anderson às 03h14
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No elevador

Os chineses não gostam de conversar no elevador, mas eu não ligo: entro e cumprimento todo mundo. A maioria não responde. Devem pensar: "gringa estranha..." 

O lugar onde eu moro chama "地球村" ou "Vila Global" não por acaso: são 9 prédios de dormitório de estudantes e professores estrangeiros. No meu prédio, há ainda chineses com passaporte estrangeiro, mas a maioria não fala nem inglês. Os pais foram a outro país para tê-los e logo voltaram à China ou estavam morando em outro país por conta do trabalho e logo voltaram para cá. Passaporte estrangeiro vale ouro.

Voltando ao elevador... sempre tento conversar um pouquinho com quem entra no elevador comigo. Acabei de conhecer duas meninas: uma do Turcomenistão e outra das Maldivas. Acho que nunca tinha conhecido pessoas desses dois país. Realmente uma vila global. Pena que só deu tempo de perguntar de onde elas eram e o que faziam aqui. Queria saber sobre a língua, comida, cultura dos países. Espero encontrá-las novamente. 



Escrito por Lúcia Anderson às 03h06
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"Elas deixaram os maridos no Brasil?!?" - a visão machista de muitos brasileiros

Estava conversando com uma pessoa (vamos deixar o sexo indefinido) e falando sobre as minhas duas queridas amigas - a russa e a alemã - ambas casadas com brasileiros e morando sozinhas na China. A pessoa perguntou: "Mas elas deixaram os maridos no Brasil?!?! Como assim?"

Cara pessoa, você pode não entender, mas tem muito homem que ama, admira e (surpresa!) apoia as decisões de suas esposas e namoradas. Não são só elas que fazem isso. Os homens também podem fazer. Já estamos em 2016 (não 1906!). Talvez seja difícil para você, uma pessoa machista e e com pensamento antiquado, entender isso. Mas isso se chama amor. Um apoia o outro. 

Uma amiga veio para ficar três meses e o marido dela veio aqui visitá-la. Olha que coisa mais difícil para você entender: ela é casada, veio para a China trabalhar por três meses e o marido veio aqui visitá-la. Sim, tem gente assim no mundo (ainda bem!). A outra amiga veio para trabalhar UM ANO e (pasme!) o marido a apoiou e também vem visitá-la. É preciso atualizar essa visão machista de que só as mulheres podem esperar os homens. O contrário também acontece. Viu, só! 


 



Escrito por Lúcia Anderson às 02h09
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Pessoas, coisas, lugares, músicas que inspiram

Eu não queria ir. A semana tinha sido difícil e não tinha conseguido fazer nem metade do que precisava. O artigo encomendando pelo orientador chinês não tinha nem sido começado. O sono estava atrasado. Iria usar o final de semana para ler, pesquisar e colocar a vida em dia. "O Cristovam é uma pessoa incrível!", insistia a amiga russa. Sim, ele é político, tem experiência. Claro que deve ser uma pessoa incrível, carismática. Até aí, sem novidades. Eu já tinha ido para a Muralha diversas vezes. Cansa. Viagem de 2h saindo de Beijing (se o trânsito estiver bom), dia inteiro subindo e descendo escadas. Tem que estar bem disposto.

Acordei sábado às 6h30. Tinha que estar no hotel antes das 9h. Era longe. Iríamos sair de lá pontualmente. Nosso trio - uma russa, uma alemã e uma campineira - chegou no horário combinado. Lá nos encontrou um professor brasileiro de uma universidade do sul da China: "O Cristovam já está descendo". Depois de alguns minutos uns 3 homens aparecem andando com porte de gente importante ao redor de um senhor todo vestido de preto. Ele vê as minhas amigas e abre um sorriso. Ele as conhecera no dia anterior. Nos cumprimenta muito alegremente e diz: "Você que é a Lúcia?". Como é que ele sabe meu nome...? "Sim, sou eu. Muito prazer, senador". "Senador não... aqui todo mundo o chama somente de Cristovam", explica o professor brasileiro.

Saímos do hotel e o professor já tinha tudo organizado: "Eu vou atrás com a Alina, a Alena senta aqui entre o vice-cônsul e o Eduardo, a Lúcia vai na frente com o Cristovam". Que sorte! Vamos conversando todo o trajeto. Duas pessoas se conhecendo, se descobrindo. Conversamos sobre o Brasil, a China, os caracteres chineses (eu adoro falar sobre China, caracteres e ele estava gostando muito de escutar. Foi uma combinação perfeita), falamos sobre economia, a desigualdade social nos dois países, os lugares que ele morou (até em Honduras!), o que eu estou pesquisando, a gastronomia daqui e muitas outras coisas. Uma conversa natural, gostosa. Parece que a viagem até a Muralha durou cinco minutos! "Nossa! Já chegou! Nem vi o tempo passar". Apesar da diferença de 38 anos que nos separa, senti uma conexão muito forte, como nunca tinha sentido antes com mais ninguém. Tenho conhecido tanta gente... tanta gente que não quer conversar, só falar, falar, falar que quando aparece uma pessoa disposta a dialogar, escutar, dar opiniões inteligentes e sem preconceitos é fácil ficar deslumbrada. Ainda mais se essa pessoa for muitíssimo culta e, (pasmem!), muitíssimo humilde. Difícil encontrar gente assim. Tenho conhecido muita gente inteligente também: moço com doutorado em Harvard, outro com mestrado na Universidade de Oxford. Pena que quase sempre essa inteligência vem junto com uma arrogância difícil de engolir. 

Cristovam e eu andamos pela Muralha, tiramos muitas fotos, fizemos piquenique e descemos a montanha de tobogã. Que dia maravilhoso, inesquecível! Como passou rápido... Que bom que eu fui. Não terminei o artigo que o orientador pediu, mas isso pode esperar. As memórias desse dia lindo com minhas queridas amigas russa e alemã e com o querido Cristovam Buarque vão ficar para sempre na minha memória. Que homem incrível!



 



Escrito por Lúcia Anderson às 02h01
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Meu perfil
Lúcia A., formada em Letras, especialista em Comunicação e escritora!

Foi trabalhar em Beijing, na China, e não sabe quando (e se!) volta ao Brasil. Escreve sobre suas descobertas, aventuras e outras coisinhas mais neste espaço.

e-mail: lunachina@uol.com.br

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